STARTUPS
Por que as mulheres estão evitando empregos em locais de trabalho ‘‘planos’’

*Por Seb Murray

Promover uma ‘‘hierarquia horizontal’’ com menos níveis de gestão pode soar moderno e progressista. Promete agilidade, igualdade e empoderamento. No entanto, um novo estudo coautorado pelo professor de Administração da Wharton SchoolSaerom (Ronnie) Lee, sugere que, embora organizações horizontais possam atrair alguns candidatos, elas também podem dissuadir discretamente outros –  especialmente mulheres.

‘‘Estruturas horizontais podem parecer igualitárias e inclusivas. Mas, para muitas mulheres, elas podem levantar suspeitas sobre justiça, apoio e oportunidades de crescimento profissional’’, explica Lee.

Em dois experimentos de mercado de trabalho, Lee e seus coautores descobriram que destacar hierarquias mais horizontais com menos camadas de gestão em materiais de recrutamento pode reduzir significativamente a proporção de candidatas, mesmo que o interesse dos homens permaneça o mesmo ou tenha aumentado ligeiramente.

Publicado no Strategic Management Journal no início do ano passado, o estudo foi coautorado com Reuben Hurst, da Smith School of Business da Universidade de Maryland, e Justin Frake, da Ross School of Business da Universidade de Michigan.

Professor Saerom Lee

O que a hierarquia plana diz sobre seu local de trabalho

Para reunir suas descobertas, o trio primeiro realizou um experimento de campo com uma startup de saúde dos EUA. Eles enviaram e-mails de recrutamento para cerca de 8.400 candidatos para duas vagas – uma em Engenharia de Software e outra em Desenvolvimento de Negócios. A única diferença entre os e-mails: alguns mencionaram que a empresa tinha uma estrutura ‘‘plana’’, com menos níveis de gestão, enquanto outros não.

Os resultados foram impressionantes. Quando a estrutura plana foi destacada, a proporção de candidatas caiu oito pontos percentuais – de 27% para apenas 19%.

Os pesquisadores, então, conduziram um segundo estudo, desta vez, uma pesquisa online com quase 8.500 trabalhadores americanos. Este estudo corroborou os resultados anteriores e explicou a lacuna nas candidaturas: as mulheres eram mais propensas do que os homens a associar hierarquias horizontais a oportunidades limitadas de crescimento, cargas de trabalho mais pesadas e pouca adequação cultural.

Locais de trabalho planos não resolvem problemas sistêmicos

As descobertas representam um desafio para as empresas. Em teoria, os locais de trabalho horizontais deveriam ser mais igualitários, inclusivos e empoderadores, especialmente em comparação com as estruturas ‘‘burocráticas’’ tradicionais. Mas, na prática – ou pelo menos na percepção –, muitas mulheres os veem de forma diferente.

O estudo sugere que, com menos estrutura e supervisão gerencial, organizações horizontais podem abrir mais espaço para ‘‘culturas de irmãos’’, que colocam as mulheres em segundo plano. Alguns participantes do estudo afirmaram que teriam dificuldade para se encaixar nessas empresas.

Uma entrevistada reconheceu que uma estrutura horizontal ‘‘tem o potencial de reduzir a burocracia desnecessária. No entanto, isso por si só não resolverá problemas sistêmicos como os enfrentados pelas mulheres em muitas empresas’’. Outra observou que organizações horizontais podem ‘‘impedir a ascensão de funcionários marginalizados’’.

Como as startups podem impulsionar a diversidade de gênero

As conclusões do estudo têm um peso especial para startups. Fundadores frequentemente preferem estruturas horizontais para se moverem rapidamente e se manterem ágeis. Mas esta pesquisa revela que um organograma enxuto pode ter um custo oculto: menos mulheres no grupo de candidatos. Se não for abordado, isso pode consolidar o que alguns chamam de ‘‘dívida de diversidade’’, em que uma equipe inicial homogênea se torna mais difícil de diversificar à medida que a startup expande seus negócios.

‘‘Para empresas que buscam contratar mais mulheres, a mensagem é bem clara: hierarquia horizontal nem sempre parece justa’’, disse Lee. ‘‘Se uma hierarquia horizontal é essencial para a identidade da sua empresa, evite enfatizá-la demais no recrutamento – ou combine-a com garantias claras sobre justiça, carga de trabalho e progressão na carreira.’’

A lição não é abandonar estruturas horizontais, mas reconhecer suas consequências posteriores sobre quem opta por se candidatar. As startups podem manter a agilidade e a abertura que tais estruturas podem proporcionar, ao mesmo tempo em que abordam as percepções que impedem as mulheres de se candidatarem. Isso pode exigir a comunicação de critérios de promoção transparentes, o esclarecimento de funções e a demonstração de práticas inclusivas, além de qualquer menção à horizontalidade.

Abordar essas preocupações precocemente pode ajudar as empresas jovens a atrair um conjunto mais amplo de talentos, evitar a dívida de diversidade e construir uma equipe mais inclusiva e dinâmica – melhor posicionada para escalar e competir a longo prazo.

Wharton School é a primeira escola de negócios universitária do mundo, fundada em 1881, na Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos. É uma instituição de referência global em Administração e Marketing, conhecida por seus programas de graduação e pós-graduação, como o MBA, e por sua forte ligação com a comunidade empresarial.

*Seb Murray é articulista da Knowledge at Wharton, o jornal de negócios da Wharton School

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